Em outro artigo contamos o caso Sally Clark, na Inglaterra, em que exames não revelados ao júri derrubaram duas condenações. O caso de Kathleen Folbigg, na Austrália, é parecido na superfície e mais instrutivo no detalhe. Aqui não houve exame escondido. Houve uma prova médica que, por quase duas décadas, foi lida de um único jeito, e uma revisão que só mudou de rumo quando especialistas de outras áreas foram chamados a examiná-la. Ele interessa a quem trabalha com perícia no Brasil por um motivo prático: mostra o que acontece quando a conclusão de um laudo é tratada como mais certa do que a ciência por trás dela permite.

Em resumo
  • Kathleen Folbigg foi condenada em 2003 pela morte dos quatro filhos, ocorridas entre 1989 e 1999. A pena, de 40 anos, foi reduzida para 30 em 2005.
  • Um primeiro inquérito, em 2019, concluiu que não havia dúvida razoável sobre a culpa.
  • Um segundo inquérito, com especialistas em genética e cardiologia, considerou uma variante rara do gene CALM2, encontrada nas duas filhas, causa razoavelmente possível das mortes delas.
  • Ela foi perdoada e libertada em junho de 2023. Em 14 de dezembro de 2023, o tribunal de apelação anulou todas as condenações.

O caso

Os quatro filhos de Kathleen Folbigg morreram muito pequenos. Caleb, em 1989, com 19 dias de vida. Patrick, em 1991, com oito meses. Sarah, em 1993, com dez meses. Laura, em 1999, com 19 meses.1 Em 2003, um júri de Nova Gales do Sul a condenou pelo homicídio de três deles, pelo homicídio culposo de Caleb e por lesão corporal grave contra Patrick. A pena foi fixada em 40 anos. Em 2005, o tribunal de apelação manteve as condenações e reduziu a pena para 30 anos.

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Segundo a cobertura dos inquéritos posteriores, pesaram contra ela a improbabilidade atribuída a quatro mortes naturais na mesma família, a ausência de uma causa natural que convencesse os peritos da época e a leitura de anotações dos seus diários como admissões. Em 2019, um inquérito conduzido por um ex-presidente de tribunal distrital revisou o caso e concluiu que não havia dúvida razoável: para o relatório, a única conclusão razoável era a de que alguém havia causado mal às crianças de forma intencional.4

O que mudou: a prova médica foi reexaminada por outras especialidades

Em 2018, uma análise genética identificou nas duas filhas uma variante rara do gene CALM2, que codifica a calmodulina, proteína ligada ao controle do cálcio nas células do coração. Variantes nesse gene estão associadas a arritmias e morte súbita.1 Em 2021, cerca de 90 cientistas e profissionais de saúde assinaram uma petição pedindo a revisão do caso, e o governo do estado abriu um segundo inquérito, presidido pelo ex-presidente do Tribunal de Justiça de Nova Gales do Sul.2

Em abril de 2023, a advogada que assistia o inquérito afirmou que, diante do conjunto de provas, havia dúvida razoável sobre a culpa. Especialistas em cardiologia e genética consideraram a variante CALM2 uma causa razoavelmente possível das mortes de Sarah e Laura. Para Laura, a miocardite, inflamação do músculo cardíaco, também foi apontada como causa possível. Para Patrick, especialistas indicaram a possibilidade de um distúrbio neurogenético. A morte de Caleb permaneceu sem causa determinada. A avaliação psicológica especializada concluiu que tratar os diários como confissões não era uma leitura confiável.3

1989 a 1999
Morrem os quatro filhos, com idades entre 19 dias e 19 meses.
2003 e 2005
Condenação por três homicídios, um homicídio culposo e uma lesão corporal grave. Pena de 40 anos, reduzida para 30 em apelação.
2018
Análise genética identifica nas duas filhas uma variante rara do gene CALM2.
2019 e 2021
Primeiro inquérito rejeita a nova prova genética e conclui que não há dúvida razoável sobre a culpa. Em 2021, o pedido de revisão desse relatório é negado.
2021 a 2023
Petição de cerca de 90 cientistas e segundo inquérito, com especialistas em genética e cardiologia.
Junho de 2023
Perdão do governo estadual e libertação, após cerca de 20 anos presa.
14 de dezembro de 2023
O Tribunal de Apelação Criminal anula todas as condenações e registra absolvição, reconhecendo dúvida razoável.
Agosto de 2025
O governo anuncia pagamento ex gratia de 2 milhões de dólares australianos, valor criticado no parlamento como insuficiente.5

Por que o primeiro inquérito confirmou e o segundo não

A diferença entre 2019 e 2023 não está numa nova testemunha ou num documento esquecido. Está em quem foi chamado para ler a prova médica. Enquanto o caso foi examinado principalmente sob a ótica da patologia forense e da improbabilidade estatística, a ausência de causa natural pesou contra a acusada. Quando a genética e a cardiologia foram incorporadas, a mesma ausência passou a ser lida pelo que ela era: falta de diagnóstico, e não diagnóstico de crime.

"Não encontramos causa natural" e "não houve causa natural" são frases diferentes. Um laudo que confunde as duas transfere para o processo uma certeza que a medicina não tinha.

O que o caso ensina para a perícia no Brasil

1. O laudo precisa declarar o seu limite. O Código de Processo Civil exige que o perito indique o método e demonstre que ele é predominantemente aceito pelos especialistas da área (art. 473, III).6 Uma conclusão de "causa indeterminada" é uma conclusão legítima e, às vezes, a única honesta. Quando o laudo transforma indeterminação em afirmação, o defeito é de método, e pode ser impugnado como tal.

2. Pergunta multidisciplinar pede leitura multidisciplinar. Morte súbita na infância envolve patologia, cardiologia, genética e pediatria. Se a perícia é feita por uma única especialidade, os quesitos podem e devem perguntar o que as outras teriam a dizer, e o assistente técnico pode trazer esse olhar ao processo.

3. Ciência nova tem porta de entrada no processo. No cível, o juiz pode determinar nova perícia quando a matéria não estiver suficientemente esclarecida (art. 480 do CPC)6, e a ação rescisória admite prova nova obtida depois do trânsito em julgado (art. 966, VII), com prazo contado da descoberta da prova, limitado a cinco anos do trânsito (art. 975, § 2º).6 No processo penal, a revisão criminal pode ser pedida a qualquer tempo quando surgem novas provas de inocência (art. 621, III, do Código de Processo Penal).7

4. A revisão só funciona se alguém fizer as perguntas certas. O que reabriu o caso Folbigg não foi o sistema funcionando sozinho. Foi a iniciativa de pesquisadores e da defesa de levar a prova médica a quem podia questioná-la. Em processos com prova médica decisiva, essa é a função do assistente técnico desde o início, e não só quando a condenação já existe.

Os fatos deste artigo vêm de fontes públicas sobre um processo concluído em outro país. O caso é citado pelo que ensina sobre método pericial, sem juízo sobre pessoas.

Fontes
  1. NPR, "Australian court overturns woman's convictions in deaths of her children" (14/12/2023)
  2. Rule of Law Institute of Australia, "Folbigg Procedural History Overview" — R v Folbigg [2003] NSWSC 895; [2005] NSWCCA 23; Folbigg v Attorney-General of NSW [2021] NSWCA 44; Folbigg v R [2023] NSWCCA 325
  3. The New Daily, manifestação de dúvida razoável no inquérito de 2023 (26/4/2023)
  4. The New Daily, relatório do inquérito de 2019 (22/7/2019)
  5. 1News, pagamento ex gratia de 2 milhões de dólares australianos (9/8/2025)
  6. Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015), arts. 473, 480, 966 e 975
  7. Código de Processo Penal (Decreto-Lei nº 3.689/1941), arts. 621 e 622